Cartinha

By Luiz Guilherme Amaral

Caríssima,

espero que esteja tudo bem e que seus últimos problemas tenham se transformado em piadinhas de cozinha. Por aqui está tudo tranqüilo. A marca de cigarro que eu relapsamente deixei no envelope já evidencia que eu ainda não consegui parar de fumar, mas também nem é uma meta que eu perseguia com muito afinco.

Pensei muito em você esses dias. Vi aquelas florzinhas que você tinha no vazinho à beira da janela, só que desta vez elas estavam perto de outras amiguinhas iguais num belo gramado, no quintal de uma casa que tinha tudo para ser nossa. Sim, aquela com cerquinha branca. Parece melancólico dizer isso exatamente agora, mas eu não pude me conter em rabiscar algumas linhas e dizer que estou vivo e estou bem e que penso em você.

Esses dias fui abordado por uma senhora. Ela me fitava incessantemente e, quando eu fui perguntar por que estava fazendo aquilo, ela mesma me interrompeu e disse: você parece meu filho. Aí eu perguntei onde ele estava. Ela disse: voou para longe. Foi ser marinheiro nos Estados Unidos. Fiquei pensando se fosse eu. Subitamente comecei a me transportar para essa cena. Eu me imaginei bem longe, fazendo um trabalho num lugar inóspito, com pessoas com o mesmo propósito que eu e sentindo a mesma vontade de estar e não estar naquele lugar. Imaginei-me descendo em terras alheias, sentindo o cheiro daquela sociedade que não é a minha e que, ao mesmo tempo, precisa que eu esteja lá. Ou não precisa, sei lá. De repente, começo a lembrar do cheiro da comida da minha mãe, de como é engraçado me esticar no sofá ao lado da minha irmã e falar abobrinhas, e rir descompensadamente. Foi aí que me veio aquele aperto no peito, aquela vontade de estar perto. Eu acho que uma das maiores vantagens de ser ateu (exatamente desse jeito que você tanto critica) é que você fica perto das pessoas sabendo que elas vão desaparecer um dia, que não há como encontrá-las em qualquer outro momento, nem mesmo depois da morte. Isso faz com que você realmente fique perto; aproveite até a última gota do suco.

Depois de fazer essa pequena viagem mental, eu percebi que deveria estar mais presente na sua vida. Portanto, eu peço que você responda essa carta com o máximo de calma e carinho, pois tranformá-la-ei num documento de que temos uma bela história. As pessoas são belas, as histórias que temos com elas, também. Quando Kevin Arnold diz nos “Anos Incríveis” que “às vezes temos que crescer separados para crescermos juntos”, eu duvidei. Nós temos que estar juntos o maior tempo possível para fazer uma história cada vez mais completa.

Bem, eu acho que é isso. Cuide-se e um abraço para os seus.

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3 Respostas para “Cartinha”

  1. Vi Disse:

    Muito legal Gui,

    Realmente, as pessoas são belas, tais quais os momentos, por isso que duram o tempo suficiente para serem bons!

    Bjo

  2. aline Disse:

    emocionante, amor.

  3. Grazielle Disse:

    Nossa… de tirar o fôlego!

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