Ouvi dizer que, quando uma pessoa morre, o último sentido que ela perde é a audição. Antes de morrer, a última coisa que uma pessoa faz é ouvir. Não é o que vem depois que me dá medo. Eu morreria feliz se conseguisse ouvir pela última vez o barulho dos vizinhos contando piada logo de manhã, ou ouvir o vendedor de goiabas reclamando para quem não as compra. Eu não encararia a morte completa se, antes dela, eu não ouvisse os trechos preferidos das músicas preferidas, se eu não ouvisse o grito da torcida do meu time, se eu não ouvisse o barulho do carro do meu pai chegando para me fazer mais uma visita. Não teria uma morte completa se eu não ouvisse a sua voz pela última vez, se eu não pudesse ouvir o estalinho que você faz quando começa a puxar seus dedinhos magros, se eu não pudesse ouvir uma última rima sua, um último absurdo seu, um último elogio. Até o ‘eu te amo’, que eu nunca ouvi de você, gostaria de ouvir. Eu não embarcaria desta para a melhor – ou pior, ou apenas embarcaria – se eu não ouvisse seus pés quebrando as folhinhas no chão naquela caminhada friorenta que a gente ainda não insistiu em fazer no Ibirapuera. Eu seria um meio-morto se eu não ouvisse você rir, chorar, citar, ponderar, viver. Nem que fosse por uma última vez. A derradeira.
Julho 24, 2009 às 2:27 am |
caralho…
fodastica essa …
gostei. virei seu fã !!!