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Conversa saudável pela manhã

Setembro 19, 2009

Nesta manhã de sábado (19/09/09), acordei para meu afazeres domésticos: tirei o lixo, comprei coisas para o almoço e paguei duas contas na lotérica. Como já estava por lá, resolvi fazer uma “fezinha” na Mega-Sena, afinal 24 milhões resolveria a minha vida e da minha próxima geração (no caso, meu sobrinho, priminho e priminhas gêmeas). Fiz meu jogo, fui para o caixa:

Eu: Bom dia! Tudo bem?
Atendente: Tudo, e você?
Eu: Tudo, sim. E aí, tem saído muitos prêmios?
Atendente: Ah, sim! Tem saído (e começou a enumerar)…
Eu: Então hoje sai o meu bilhete da Mega, né?
Atendente: Ah, vai sair, sim. Se Deus quiser!
Eu: Não, minha querida. Deus não tem nada a ver com isso. Eu vou ganhar se a probabilidade estatística permitir.
Atendente: Ah, pode até ser, mas se Deus não quiser, você não ganha, não é verdade?
Eu: Não, é mentira. Eu não dependo desse tipo de coisa para ganhar. Só da matemática.

Depois dessa última fala, a mulher fechou a cara e foi extremamente eficiente para cobrar minhas contas e validar meu jogo. Agradeci, continuei sendo muito educado e fui continuar meu dia.

Este é um exemplo que pode parecer bobo, dando a impressão que eu sou um ateu encrenqueiro. Tá bom, de vez em quando eu sou mesmo. Mas neste caso, não! Eu apenas afirmei a minha posição com relação ao mundo evitando que a prática do proselitismo seja uma atitude corriqueira. Pode até ser, mas não no meu caso. Como daquela vez em que eu parei no semáforo e um homem me pediu dinheiro para comprar um remédio. Eu disse que não tinha, mas quem sabe ele poderia pedir em um posto de saúde ou até mesmo dar a sorte de encontrar um médico no semáforo, aí ele poderia ter sucesso. Quando ele me soltou um “Deus te abençoe”, disse:  “você acha mesmo que, se Deus existisse, você estaria aqui pedindo dinheiro?”. Ele me soltou um sorriso e ao sair, disse: “(risos) Deus não existe…”.

Talvez atitudes assim possam custar a sua simpatia, é verdade. Mas também é uma posição crítica que não pode passar nula. Tem que ser afirmada. Se mais ateus puderem, com atitudes simples como essas, deixar claro que não somos monstros demoníacos e imorais, mas cabeças pensantes, poderíamos sair desta condição de minoria incompreendida para uma frente forte e respeitada. Cada um fazendo sua parte, como dizem os ambientalistas.

Cruzeiro do Sul, o retorno

Fevereiro 20, 2008

Depois que eu escrevi no Jornal Cruzeiro do Sul em Sorocaba a respeito da placa religiosa na entrada da cidade, alguns leitores me responderam via jornal, tecendo críticas a mim e ao ateísmo. Aí eu escrevi uma resposta a eles, mas esta não foi publicada. Então, como eu não gosto de perder textos, estou publicando a resposta logo abaixo:

***

Em resposta aos leitores pelas opiniões dadas na seção de Cartas deste jornal no dia 7 de Fevereiro de 2008, devo esclarecer alguns fatos:

O que está em jogo nesta saudável discussão? O fato de eu não ser cristão ou a atitude de um órgão municipal que deveria ser laico?  O que eu quero deixar claro é que premissas do tipo “deus enviou seu filho para nos amar” ou “se não praticarmos uma religião, não chegaremos ao ideal comum em busca de deus” não justificam qualquer atitude que solidifique a moral e a tolerância entre as pessoas. Tanto isso é verdade, opinantes cristãos, que, olhem para vocês mesmos: já faz mais de dez dias que eu enviei o meu primeiro artigo e todos vocês estão se sentindo vilipendiados em face das minhas opiniões que corroboram com o racionalismo puro e simples. Então, isso apenas reforça o fato que eu expressei no primeiro texto: “a religião torna as pessoas separatistas e intolerantes”. É óbvio que isso não é a regra geral. Existem muitas pessoas que são tolerantes com as diferenças religiosas, mas que, no âmago, guardam o sentimento de “superioridade” por acharem que serão “salvas” no dia do “Juízo final”.

Querem um exemplo clássico de que a religião é produto do homem? Lembrem-se de quando Joseph Ratzinger reuniu um conselho de teólogos para decidir se havia ou não purgatório. Ora, meus caros, como que nós, seres humanos “produtos da infinita bondade divina” podemos decidir por algo que ele mesmo instituira em sua onisciência?

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E, se por acaso me perguntarem “você já leu a Bíblia”, eu respondo: “sim, já li várias vezes, só que não a li com a cegueira da fé, e sim com a lucidez da razão, e por isso posso assegurar que se trata de um livro que registra uma cultura muito antiga, que defende costumes de um povo singular em uma época específica e que não há absolutamente uma página sequer que possa provar que é fruto de qualquer inspiração divina”. E você pode perguntar para qualquer historiador ou antropólogo e obterá a mesma resposta que eu dei. E posso explicar muito mais coisas acerca do ateísmo se vocês, leiores, me pedirem.

Mais do que debater quem está certo ou quem está errado, porque nenhum de nós tem a resposta (apenas teorias, uma vez que ateus tratam de fatos empíricos e o religiosos de fatos hipotéticos), é aprender com as diferenças dos outros. Como eu disse, para falar de alguma coisa deve-se conhecê-la bem. Concordo com a leitora Beatriz Monteiro: vamos rever a postura de religiosos que querem falar em nome de todos. E que vocês cristãos e nós, ateus, possamos aprender um com o outro cada dia mais, sem o sentimento de separatismo, agressões verbais ou desdém. Afinal de contas, um grande passo já foi dado: estamos debatendo com a ajuda de um meio de comunicação confiável.

E já que todos gostam de citar a Bíblia, vou dar uma de minhas citações favoritas, que exemplifica o fato de que este livro nada mais é do que um registro cultural e nada mai além disso:

“Se uma mulher for estuprada na cidade, e não gritar alto suficiente, ela deve ser apedrejada até a morte (Dt 22:23-24). Caso seja no campo, então ela vive (Dt 22:25). Enfim, se o estuprador for apanhado, ele deverá pagar uma quantia ao pai e casar com a estuprada (Dt 22:28-29).”

Luiz Guilherme Amaral

Esse papo tá pra lá de Teerã

Janeiro 24, 2008

Sabe quando você diz alguma coisa e tem a certeza que ninguém vai dar bola? Foi o que aconteceu quando eu expressei minha opinião sobre a polêmica da placa no acesso à “Castelinho” que diz: Sorocaba é do Senhor Jesus Cristo.

UPDATE: O artigo foi publicado no Jornal Cruzeiro do Sul de Sexta-feira (25/01/08) na seção ‘Cartas’.

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O lastro de Deus nada mais é do que um lastro de sandices.

Deplorável a cena reportada pelo Jornal Cruzeiro do Sul a respeito da briga com a faixa colocada sobre a placa na saída da “Castelinho” com os dizeres “Sorocaba é do Senhor Jesus Cristo”. Ora, vamos explicar os fatos.

Já não é de se admirar que um país que se julgue um estado laico (um estado independente de religião) e que tem em sua cédula monetária a frase “Deus seja Louvado” possa ter cidadãos que provoquem esse tipo de atitude. A bem da verdade é que uma cidade que acolhe e respeita todas as ideologias não pode se ater apenas aos religiosos, mas também aos ateus, e que não são poucos. Só no Brasil, somos em mais de três milhões. E se você acabou de pensar “o que os ateus sabem sobre religião?”, posso responder que conhecemos esse assunto com muita propriedade, pois para falar mal de alguma coisa, temos que conhecer bem.

E se a discussão foi o desrespeito com a religião, como disse o pastor Flávio Antônio Corrêa Leite, devo lembrar que, em toda história, os cientistas sempre tiveram o senso comum de respeitar religiosos, e no entanto toda vez que a igreja subiu ao poder, ela mandou matar os cientistas. Então, qual é o senso de respeito que a religião pode proporcionar? Como você pode confiar um grupo de pessoas cujo símbolo principal é um homem pregado em uma cruz de madeira? Como confiar num livro onde a maior autoridade é um deus de guerra e que seu filho traz a espada? Como confiar em uma crença que espalha a intolerância? Em toda sua história, cristãos derramaram sangue e dizimaram outras religiões, tudo por se sentirem ameaçados. E hoje, a igreja emperra o progresso intelectual com seus dogmas parcos, cheios de fábulas e que não cabem mais no mundo em que vivemos.

Ética, em seu sentido mais amplo, é entender as diferenças, aceitá-las e trazer a boa convivência. Não é o que acontece quando falamos de religiosos. A história da religião é extremamente clara ao apontar evidências de exclusão, agressão, tortura e chacinas. E parece que esses mesmos cristãos não leram as palavras do seu próprio messias, onde ele diz que devemos respeitar e tolerar as diferenças. Ateus como eu nem precisam ter uma divindade para saber que isso é o que garante o bom convívio entre as pessoas.

Religião não se discute? É claro que se discute! O problema é que não haverá em toda história um teólogo ou religioso que possa trazer respostas tão lúcidas quanto a razão pode proporcionar. Enquanto legiões cristãs entram na África sub-saariana e tentam converter habitantes portadores de HIV ao cristianismo e ensiná-los que camisinha é pecado, existe uma série de cientistas que trabalham arduamente para resolver as questões que qualquer crença não pode resolver. A citação “duas mãos trabalhando valem mais do que milhares rezando” jamais foi tão óbvia como neste momento.

Tolerância religiosa não é dizer que existe a praça dos espíritas, a esquina dos muçulmanos ou a ponte dos rastafari. Tolerância é aprender o máximo possível com quem pensa totalmente o contrário de você.

Luiz Guilherme Amaral é publicitário em Sorocaba.
lgla80@gmail.com