Depois que eu escrevi no Jornal Cruzeiro do Sul em Sorocaba a respeito da placa religiosa na entrada da cidade, alguns leitores me responderam via jornal, tecendo críticas a mim e ao ateísmo. Aí eu escrevi uma resposta a eles, mas esta não foi publicada. Então, como eu não gosto de perder textos, estou publicando a resposta logo abaixo:
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Em resposta aos leitores pelas opiniões dadas na seção de Cartas deste jornal no dia 7 de Fevereiro de 2008, devo esclarecer alguns fatos:
O que está em jogo nesta saudável discussão? O fato de eu não ser cristão ou a atitude de um órgão municipal que deveria ser laico? O que eu quero deixar claro é que premissas do tipo “deus enviou seu filho para nos amar” ou “se não praticarmos uma religião, não chegaremos ao ideal comum em busca de deus” não justificam qualquer atitude que solidifique a moral e a tolerância entre as pessoas. Tanto isso é verdade, opinantes cristãos, que, olhem para vocês mesmos: já faz mais de dez dias que eu enviei o meu primeiro artigo e todos vocês estão se sentindo vilipendiados em face das minhas opiniões que corroboram com o racionalismo puro e simples. Então, isso apenas reforça o fato que eu expressei no primeiro texto: “a religião torna as pessoas separatistas e intolerantes”. É óbvio que isso não é a regra geral. Existem muitas pessoas que são tolerantes com as diferenças religiosas, mas que, no âmago, guardam o sentimento de “superioridade” por acharem que serão “salvas” no dia do “Juízo final”.
Querem um exemplo clássico de que a religião é produto do homem? Lembrem-se de quando Joseph Ratzinger reuniu um conselho de teólogos para decidir se havia ou não purgatório. Ora, meus caros, como que nós, seres humanos “produtos da infinita bondade divina” podemos decidir por algo que ele mesmo instituira em sua onisciência?
E, se por acaso me perguntarem “você já leu a Bíblia”, eu respondo: “sim, já li várias vezes, só que não a li com a cegueira da fé, e sim com a lucidez da razão, e por isso posso assegurar que se trata de um livro que registra uma cultura muito antiga, que defende costumes de um povo singular em uma época específica e que não há absolutamente uma página sequer que possa provar que é fruto de qualquer inspiração divina”. E você pode perguntar para qualquer historiador ou antropólogo e obterá a mesma resposta que eu dei. E posso explicar muito mais coisas acerca do ateísmo se vocês, leiores, me pedirem.
Mais do que debater quem está certo ou quem está errado, porque nenhum de nós tem a resposta (apenas teorias, uma vez que ateus tratam de fatos empíricos e o religiosos de fatos hipotéticos), é aprender com as diferenças dos outros. Como eu disse, para falar de alguma coisa deve-se conhecê-la bem. Concordo com a leitora Beatriz Monteiro: vamos rever a postura de religiosos que querem falar em nome de todos. E que vocês cristãos e nós, ateus, possamos aprender um com o outro cada dia mais, sem o sentimento de separatismo, agressões verbais ou desdém. Afinal de contas, um grande passo já foi dado: estamos debatendo com a ajuda de um meio de comunicação confiável.
E já que todos gostam de citar a Bíblia, vou dar uma de minhas citações favoritas, que exemplifica o fato de que este livro nada mais é do que um registro cultural e nada mai além disso:
“Se uma mulher for estuprada na cidade, e não gritar alto suficiente, ela deve ser apedrejada até a morte (Dt 22:23-24). Caso seja no campo, então ela vive (Dt 22:25). Enfim, se o estuprador for apanhado, ele deverá pagar uma quantia ao pai e casar com a estuprada (Dt 22:28-29).”
Luiz Guilherme Amaral
