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Nada de novo aqui também

Junho 22, 2009

Ouvi dizer que, quando uma pessoa morre, o último sentido que ela perde é a audição. Antes de morrer, a última coisa que uma pessoa faz é ouvir. Não é o que vem depois que me dá medo. Eu morreria feliz se conseguisse ouvir pela última vez o barulho dos vizinhos contando piada logo de manhã, ou ouvir o vendedor de goiabas reclamando para quem não as compra. Eu não encararia a morte completa se, antes dela, eu não ouvisse os trechos preferidos das músicas preferidas, se eu não ouvisse o grito da torcida do meu time, se eu não ouvisse o barulho do carro do meu pai chegando para me fazer mais uma visita. Não teria uma morte completa se eu não ouvisse a sua voz pela última vez, se eu não pudesse ouvir o estalinho que você faz quando começa a puxar seus dedinhos magros, se eu não pudesse ouvir uma última rima sua, um último absurdo seu, um último elogio. Até o ‘eu te amo’, que eu nunca ouvi de você, gostaria de ouvir. Eu não embarcaria desta para a melhor – ou pior, ou apenas embarcaria – se eu não ouvisse seus pés quebrando as folhinhas no chão naquela caminhada friorenta que a gente ainda não insistiu em fazer no Ibirapuera. Eu seria um meio-morto se eu não ouvisse você rir, chorar, citar, ponderar, viver. Nem que fosse por uma última vez. A derradeira.

No dia em que eu morrer

Abril 22, 2008
(Apenas desejos póstumos)

No dia em que eu morrer
o mundo vai entrar em festa
afinal, é um bobo a menos no mundo
No meu velório não quero rezas
e nenhuma cerimônia religiosa
Quero que todos os meus amigos
fiquem muito bêbados
e cantem
Quero que levem uma banda animada
para fazer um show póstumo
e quero que todos riam
riam da minha cara
riam da morte
dessa situação ingrata em que eu me encontrarei.

No dia em que eu morrer
o sol vai brilhar ainda mais forte
o céu não terá nenhuma nuvem
e os passarinhos vão pousar
na minha lápide, já cravada na terra
E não vai ser um túmulo muito bonito
uma covinha e uma plaquinha já está bom
sem frase, sem data, só o nome
No dia em que eu morrer
ninguém ficará triste.

No dia em que eu morrer
Todos saberão que não há vida após a morte
porque eu não voltarei para contar
nem eu, nem ninguém que já morreu
Todos vão dizer
“lá se vai uma gande fraude”
“antes ele do que eu”
“já vai tarde”
E eu não serei lembrado por nada
porque nada realizei na minha vida
Meus amigos me esquecerão na próxima bebedeira
minha família vai guardar minhas fotos
não deixarei descendentes
e ninguém vai querer colocar meu nome numa rua.

O dia em que eu morrer
vai ser um dia tão sem importância
que nada do que eu disse
vai realmente acontecer.